Primeiramente, você provavelmente já se deparou com um Quadro de Distribuição de Circuitos (QDC) onde, seja para economizar ou por falta de material imediato, foram instalados dois disjuntores monopolares para proteger um único circuito bifásico (duas fases).
À primeira vista, essa “adaptação” parece inofensiva. Afinal, o raciocínio comum é: “Se eu tenho duas fases e coloco um disjuntor em cada uma, o circuito está protegido, certo?”
Entretanto, a resposta é: Errado. E perigoso.
Por isso, neste artigo, vamos explicar tecnicamente e também provar com testes reais o motivo pelo qual essa prática coloca vidas em risco e, consequentemente, viola a norma NBR 5410. Além disso, você vai entender definitivamente a diferença entre seccionamento elétrico e mecânico.

O que diz a norma NBR 5410 sobre disjuntores monopolares?
Antes de mais nada, precisamos consultar a autoridade máxima em instalações de baixa tensão no Brasil: a NBR 5410.
Nesse contexto, a pergunta que não quer calar é: Será permitido usar dois disjuntores monopolares para seccionar um circuito bifásico se eu unir as alavancas com um arame ou fita?
Para responder a isso, analisamos o item 6.3.7.2.1 da norma, que é categórico:
“O dispositivo de seccionamento deve seccionar efetivamente todos os condutores vivos de alimentação do circuito respectivo”.
Ou seja, isso significa que, ao atuar (desarmar ou ser desligado manualmente), o dispositivo deve cortar todas as fases simultaneamente.
O mito da “alavanca unida”
Frequentemente, muitos eletricistas argumentam: “Mas se eu unir as alavancas, quando um cair, ele puxa o outro!”. Contudo, é aqui que entra o item 6.3.2.1, esclarecendo a mecânica exigida:
“Os contatos móveis de todos os polos de dispositivos multipolares devem estar acoplados mecanicamente, de forma que eles se abram ou se fechem praticamente juntos”.
A norma, de fato, já previa a famosa “gambiarra” do arame ou fita isolante. Visando eliminar qualquer dúvida, existe uma nota explicativa no item 9.5.4 que derruba esse mito:
“NOTA: Dispositivos unipolares montados lado a lado, apenas com suas alavancas de manobra acopladas, não são considerados dispositivos multipolares”.
Portanto, não é permitido. Unir alavancas de disjuntores monopolares não os transforma em um disjuntor bipolar seguro.
Diferenças: Bipolar vs. 2 Monopolares
A fim de facilitar o entendimento, preparamos a tabela abaixo comparando as duas situações:
| Característica | Disjuntor Bipolar (Correto) | 2 Disjuntores Monopolares (Errado) |
|---|---|---|
| Mecanismo Interno | Unificado (Eixo único) | Independente |
| Em caso de Sobrecarga | Desliga as duas fases simultaneamente | Desliga apenas a fase afetada |
| Segurança | Total (Conforme Norma) | Risco de Choque (Contra Norma) |
| Acionamento | Uma alavanca de fábrica | Duas alavancas (Gambiarra) |
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QUERO SER UM PROFISSIONALPor que essa prática é perigosa? (O Risco Invisível)
Sobretudo, a proibição da norma não é burocracia, é física pura. Pois existe um risco real de choque elétrico fatal.
Por exemplo, imagine o seguinte cenário: ocorre uma sobrecarga em apenas uma das fases do circuito. Imediatamente, o disjuntor responsável por aquela fase detecta o problema e desarma.
Porém, como o mecanismo interno de disparo (trip) dos disjuntores monopolares é independente, a força da mola de um disjuntor muitas vezes não é suficiente para arrastar a alavanca do disjuntor vizinho, mesmo que estejam amarradas.
Consequentemente, qual o resultado? Metade do circuito desliga, mas a outra fase continua energizada. Dessa forma, o usuário ou um eletricista desavisado testa uma tomada, vê que o aparelho parou de funcionar e assume que está tudo desligado. Então, ao tocar na fiação para o reparo, recebe uma descarga da fase que permaneceu ligada.
Teste Prático: A Máquina Destruidora de Componentes (MDC)
Com o intuito de provar que isso não é apenas teoria, levamos essa situação ao limite em nosso laboratório na Engehall.
- Primeiramente, utilizamos dois disjuntores monopolares idênticos.
- Em seguida, unimos as alavancas de manobra (simulação da gambiarra de campo).
- Por fim, forçamos uma sobrecarga controlada em apenas um dos polos.
Como resultado, observamos o seguinte comportamento:
| Fase Testada | Status Após Sobrecarga | Condição de Risco |
|---|---|---|
| Fase 1 (Com sobrecarga) | Desligada (Desarmou) | Seguro |
| Fase 2 (Sem sobrecarga) | LIGADA (Energizada) | PERIGO IMINENTE |
O disjuntor sob sobrecarga desarmou internamente. No entanto, a alavanca externa não teve curso suficiente para baixar a alavanca do segundo disjuntor.
Posteriormente, ao conferir com o multímetro, a confirmação: uma fase estava morta, a outra viva.


Em suma, isso prova definitivamente que o acoplamento externo das alavancas não garante o acoplamento interno dos mecanismos de disparo. Diferentemente de um disjuntor bipolar de fábrica, onde o eixo de disparo é unificado internamente.
Conclusão: Segurança não se negocia
Certamente, o argumento de que “fica mais barato” usar dois monos no lugar de um bipolar cai por terra quando a segurança do cliente e a sua reputação estão em jogo. Visto que um bom profissional segue as normas para garantir a integridade da instalação e das pessoas.
Além disso, a proteção correta depende também do dimensionamento dos condutores. Se tem dúvidas, confira nosso guia sobre como dimensionar disjuntor geral.
Por fim, lembre-se: O disjuntor é o guardião da instalação. Não improvise.
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Este conteúdo foi escrito por
Engenheiro e especialista em Segurança do Trabalho, além de sócio da Engehall, referência nacional em treinamentos de NRs.
Há mais de 6 anos, lidera projetos de capacitação profissional e consultoria para empresas de diversos setores, promovendo a conformidade legal e a cultura de prevenção. Criador da metodologia SAFE, Marlon transforma o ensino das Normas Regulamentadoras em experiências práticas que geram engajamento e resultados reais em segurança.


