A recente atualização da NR-01 tornou obrigatória a inclusão dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) de todas as empresas. Assim, além de mapear perigos físicos, gestores e profissionais de segurança do trabalho devem identificar fatores como pressão excessiva, assédio moral e falta de autonomia.
Atender a essa exigência vai além da conformidade legal: é uma medida essencial para resguardar a saúde mental e o desempenho das equipes. Afinal, riscos psicossociais são condições laborais que podem provocar estresse crônico, esgotamento emocional e até afastamentos prolongados.
Quando não são avaliados e controlados de forma sistemática, esses fatores impactam não apenas o colaborador afetado, mas também a produtividade e a cultura organizacional como um todo.
Este guia definitivo reúne definições claras sobre riscos psicossociais, explica como identificá-los e preveni-los, e sugere dinâmicas práticas para engajar sua equipe na construção de um ambiente de trabalho mais saudável e sustentável.
O que são riscos psicossociais?
De acordo com o Guia de Informações do Ministério do Trabalho e Emprego, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicaram diretrizes sobre saúde mental no trabalho em 2022, estimando que cerca de 12 bilhões de dias úteis são perdidos anualmente em função de depressão e ansiedade, o que acarreta um custo aproximado de US$ 1 trilhão à economia global, causado principalmente pela redução de produtividade.
Ambas as instituições recomendam a implementação de medidas concretas por governos, empregadores, trabalhadores e sociedade para enfrentar esse desafio. Por isso, no contexto atual de Segurança e Saúde no Trabalho (SST), torna-se imprescindível que as organizações identifiquem e controlem os riscos psicossociais relacionados ao trabalho, com vistas à prevenção de adoecimentos mentais e de outras lesões ou agravos à integridade do trabalhador.
No Brasil, a Portaria MTE n. 1.419, de 27 de agosto de 2024, alterou o capítulo 1.5, da NR-01, passando a incluir explicitamente os fatores de riscos psicossociais no âmbito do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Com essa alteração, as empresas passaram a dedicar atenção especial para entender como incluir riscos psicossociais no PGR.
Conforme a International Labour Organization (ILO) ou Organização Internacional do Trabalho (OIT), os riscos psicossociais são definidos como elementos do desenho ou da gestão do trabalho que aumentam o risco de estresse relacionado às atividades laborais.
Em outras palavras, esta definição enfatiza as características organizacionais, sociais ou de conteúdo das tarefas que, quando adversas, elevam a probabilidade de reações de estresse e, se prolongadas ou intensas, podem causar lesões psicológicas ou físicas.
Como identificar os riscos psicossociais?
A ILO (OIT) considera que as principais categorias de riscos psicossociais que estão presentes no ambiente de trabalho podem ser detalhadas da seguinte forma:
- Conteúdo do trabalho / design da tarefa: ausência de diversidade de tarefas; não aproveitamento das habilidades disponíveis ou estar subqualificado para as atividades.
- Carga de trabalho e ritmo de trabalho: jornadas longas ou incompatíveis com a vida social; trabalho em turnos; horários rígidos, sem nenhuma flexibilidade.
- Controle sobre o trabalho: ausência de controle sobre o desenho das atividades ou sobre a carga de trabalho; participação restrita na definição da própria tarefa.
- Ambiente e equipamentos: equipamentos e recursos sem condições adequadas de segurança; condições físicas inadequadas (como iluminação deficiente, ruído excessivo ou irritante e ergonomia precária).
- Cultura organizacional: objetivos organizacionais ambíguos; canais de comunicação ineficazes; ambiente suscetível a práticas discriminatórias ou abusivas.
- Relações interpessoais no trabalho: ocorrência de isolamento social ou físico; suporte insuficiente de supervisores ou colegas; supervisão autoritária e liderança ineficaz; atos de violência, assédio ou bullying; práticas de discriminação e exclusão.
- Papel na organização: atribuições e responsabilidades pouco definidas na equipe ou na organização.
- Desenvolvimento de carreira: promoção inadequada (tanto insuficiente quanto excessiva); insegurança ocupacional; investimentos insuficientes em capacitação e desenvolvimento; aplicação de sanções a faltas por doença e avaliações de desempenho punitivas.
- Interface trabalho-vida pessoal: conflitos entre demandas pessoais e profissionais; necessidade de deslocamentos ou estadias fora do domicílio por exigências laborais.
Compreender essas categorias e suas manifestações no cotidiano organizacional é essencial para identificar pontos de atenção e embasar as etapas subsequentes de avaliação e controle dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), que passou a incorporar os fatores de riscos psicossociais com a atualização da NR-01.

Como prevenir os riscos psicossociais no ambiente de trabalho?
Para enfrentar os riscos psicossociais no ambiente de trabalho, a OIL (OIT) recomenda adotar uma abordagem preventiva com o intuito de desenvolver a avaliação de riscos psicossociais, que inclua os seguintes aspectos:
- Avaliação completa de riscos: mapear todos os aspectos do trabalho, incorporando sistematicamente os riscos e perigos psicossociais da mesma forma que se faz com outros perigos ocupacionais.
- Medidas coletivas e individuais: implementar controles de proteção coletiva (EPCs) e providenciar Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e recursos de suporte psicológico quando necessários.
- Fortalecimento do controle do trabalhador: ampliar o grau de autonomia sobre métodos, ritmo e volume de tarefas, incentivando a autorregulação e a autorresponsabilização.
- Melhoria da comunicação: estabelecer canais claros e efetivos para o fluxo de informações, assegurando feedback contínuo entre líderes e equipes.
- Envolvimento dos colaboradores: promover a participação dos trabalhadores na identificação de riscos e na definição de soluções, valorizando suas contribuições nas decisões.
- Redes de apoio social: criar e fortalecer sistemas de suporte entre pares, supervisores e áreas de Recursos Humanos, para acolhimento e orientação em situações adversas.
- Consideração do contexto vida-trabalho: reconhecer e ajustar as interações entre demandas profissionais e pessoais, visando reduzir conflitos e promover equilíbrio.
- Valorização da SST: incorporar a segurança e a saúde e, em especial a saúde mental, na cultura organizacional, atribuindo-lhes prioridade estratégica e orçamentária.
Dinâmicas e atividades práticas com a equipe
Para tornar efetiva a gestão dos riscos psicossociais, é fundamental promover a participação ativa dos colaboradores por meio de dinâmicas estruturadas.
A seguir, apresentamos duas atividades que podem ser conduzidas em reuniões presenciais ou virtuais, com duração de 60 a 90 minutos cada, e que estimulam a identificação de fatores de estresse e o aprimoramento na comunicação.
Dinâmica 1: Mapa de Estresse
Objetivo: Identificar, em conjunto, as principais fontes de estresse no ambiente de trabalho.
Materiais necessários: cartolinas ou quadro branco, post-its coloridos e canetas ou marcadores.
Passo a passo:
- Introdução (10 min): explique brevemente o conceito de risco psicossocial e como o mapa ajudará a revelar pontos críticos.
- Brainstorming individual (10 min): cada participante escreve, em post-its de uma cor, situações que considera mais estressantes (ex.: prazos, falta de clareza, conflitos).
- Agrupamento colaborativo (15 min): os post-its são fixados na cartolina ou quadro, formando clusters temáticos (carga de trabalho, comunicação, ambiente, etc.).
- Discussão em grupo (20 min): para cada cluster, o facilitador questiona causas, consequências e possíveis soluções. Anote sugestões em post-its de cor distinta.
- Priorização (10 min): os participantes votam (com adesivos ou marcadores) nos três riscos que consideram urgentes para ação.
Resultados esperados: um mapa visual das principais fontes de estresse, com ideias iniciais de mitigação e consenso sobre prioridades de intervenção.
Dinâmica 2: Feedback Construtivo
Objetivo: fortalecer a comunicação aberta e respeitosa, reduzindo mal-entendidos e tensões interpessoais.
Materiais necessários: fichas ou formulários de feedback anônimo, cópias de um roteiro de perguntas-guia e cronômetro ou relógio.
Passo a passo:
- Apresentação (5 min): explique a importância do feedback para a saúde psicológica e o desempenho da equipe.
- Formulário de feedback (10 min): distribua fichas com perguntas como: “O que eu faço que facilita seu trabalho?” e “Em que situação eu poderia melhorar minha postura?”
- Coleta anônima (5 min): os participantes preenchem e depositam as fichas em uma urna ou caixa.
- Leitura e análise (20 min): o facilitador lê os principais comentários (sem identificar autores) e os agrupa em temas de reconhecimento e aspectos a melhorar.
- Planejamento de ações (20 min): em pequenos grupos, discuta como reforçar comportamentos positivos e corrigir pontos críticos. Registre compromissos individuais e coletivos.
Resultados esperados: ambiente de maior confiança, com feedbacks claros e planos de ação para melhorar relações interpessoais e processos de trabalho.
Essas dinâmicas não só favorecem a conscientização sobre riscos psicossociais, mas também engajam as equipes na construção de soluções, reforçando uma cultura de prevenção e colaboração contínua.
Perguntas Frequentes (FAQ)
- O que caracteriza um risco psicossocial no trabalho?
Elementos do desenho ou gestão do trabalho, como sobrecarga, falta de autonomia ou clima hostil, que possam elevar o estresse e provocar burnout ou afastamentos. - Como incluir riscos psicossociais no meu PGR?
Mapeie categorias (carga, controle, relações, papel etc.) no PGR conforme NR-01 cap. 1.5 (Portaria MTE 1.419/2024) e registre indicadores e medidas de controle. - Quais métodos posso usar para avaliar riscos psicossociais?
Use questionários padronizados (COPSOQ, ISTAS-21), entrevistas, grupos focais ou observação direta para identificar fatores de estresse. - Que tipos de medidas ajudam a prevenir esses riscos?
Combine ajustes organizacionais (clareza de funções, volume de trabalho) com ações individuais (treinamento em estresse, apoio psicológico) e dinâmicas de engajamento. - É obrigatório oferecer suporte psicológico aos colaboradores?
Não há exigência legal específica, mas a OIT/OMS recomenda incluir suporte.



